Experiência multissensorial: viajar com os sentidos
Por Jefferson Renó e Alessandra Vinhas, fundadores da Pousada Casa Campestre
Atualizado em:
17 de outubro de 2026
Uma experiência multissensorial é aquela que envolve vários sentidos ao mesmo tempo: o que se vê, ouve, cheira, toca e saboreia, e também a temperatura. Como o cérebro junta tudo numa só impressão, essas experiências costumam ser mais fáceis de lembrar do que as que dependem só da visão. Na Pousada Casa Campestre, em Gonçalves (MG), elas passam pelo silêncio da mata, pelo aroma do café, pelo toque do enxoval egípcio e pelo calor do fogo de chão, ao ar livre.
O que é uma experiência multissensorial
Os sentidos não trabalham separados. O cérebro reúne o que chega de cada um e monta uma única percepção. Quando as informações combinam, a impressão fica mais forte; quando não combinam, um sentido pode mudar o que o outro percebe.
Dois experimentos mostram isso bem. Em 2001, Gil Morrot e colegas serviram a 54 estudantes de enologia da Universidade de Bordeaux um vinho branco tingido de vermelho com um corante sem cheiro. Os estudantes descreveram o aroma com palavras típicas de vinho tinto, como frutas vermelhas: a cor falou mais alto que o nariz. Em 2004, Massimiliano Zampini e Charles Spence pediram a voluntários que mordessem batatas fritas enquanto ouviam, por fones, o som da mordida. Quando o som ficava mais alto ou mais agudo, as mesmas batatas pareciam mais crocantes e mais frescas, e quase ninguém percebia que era o som que mudava a impressão. Spence ajudou a criar um campo de estudo dedicado a isso, a gastrofísica.
A combinação também ajuda a lembrar: estudos sobre aprendizagem, como os reunidos por Ladan Shams e Aaron Seitz em 2008, indicam que aprender com vários sentidos ao mesmo tempo costuma funcionar melhor do que com um só. Numa viagem, a qualidade de um momento raramente depende de um único detalhe. Um bom café fica ainda melhor diante da serra, sem pressa, com o cheiro da mata no ar.
Coerência vale mais do que quantidade
Multissensorial não quer dizer cheio de estímulos. Em 2001, Anna Mattila e Jochen Wirtz testaram aromas e músicas numa loja e viram que os clientes avaliavam melhor o ambiente quando os dois combinavam entre si: um aroma calmo com uma música calma, um aroma estimulante com uma música animada. Quando não combinavam, o efeito era menor. O que conta é a harmonia entre os sentidos, não a intensidade de cada um.
Um lugar na montanha não precisa fabricar quase nada. Na Serra da Mantiqueira, boa parte da experiência sensorial já existe: o ar de altitude, a neblina que se forma nos vales pela manhã, as araucárias no horizonte e o céu que, em noites limpas, deixa ver a Via Láctea. A Pousada Casa Campestre não cria esses estímulos; escolheu estar onde eles existem.
Luz e paisagem: o ritmo do dia
A luz muda o corpo, e não só a vista. Em 2013, Kenneth Wright e colegas levaram oito adultos para acampar uma semana nas montanhas do Colorado, só com luz do sol e de fogueira, sem lanternas nem celulares. No fim da semana, o relógio biológico deles tinha se ajustado ao sol: a melatonina, hormônio que prepara o corpo para dormir, passou a subir perto do pôr do sol, cerca de duas horas mais cedo do que na vida com luz elétrica.
Na Pousada Casa Campestre, cada um dos três chalés tem sacada com rede voltada para a mata de araucárias e para a paisagem, e cortinas black-out para quando a ideia é dormir mais.
Sons e silêncio
O silêncio também faz efeito. Num estudo de 2006, Luciano Bernardi e colegas monitoraram 24 pessoas enquanto ouviam trechos de música de estilos diferentes, com uma pausa de dois minutos inserida em momento aleatório. Durante a pausa, a frequência cardíaca, a pressão arterial e a ventilação, a quantidade de ar respirada por minuto, caíram, chegando abaixo dos níveis de repouso medidos no início.
E nem todo som cansa. Em 2010, Jesper Alvarsson e colegas submeteram 40 pessoas a uma tarefa estressante de cálculo e, em seguida, a sons diferentes, como uma fonte com pássaros ou ruído de trânsito. A recuperação, medida pela condutância da pele, tendeu a ser mais rápida com os sons da natureza. Para as noites, a Organização Mundial da Saúde recomenda que o ruído medido do lado de fora das casas fique, em média, abaixo de 40 decibéis, algo difícil de alcançar perto de ruas movimentadas.
Na Pousada Casa Campestre, o som é o da área rural, a 9 km do centro de Gonçalves, longe do ruído urbano.
Aromas: o cheiro do lugar
Cheiros chegam depressa às áreas do cérebro ligadas à emoção e à memória e costumam despertar lembranças mais carregadas de emoção do que imagens, como contamos ao falar de memórias afetivas. Muitos dos aromas que mais marcam uma viagem são os do próprio lugar.
Na Casa Campestre, são os da mata nativa e das araucárias, da terra depois da chuva, do café da manhã no chalé e da lenha do fogo de chão no jardim. Para quem escolhe o ritual do sono, uma das experiências opcionais, o chalé é preparado à noite com um difusor de aromas.
Tato: o que a pele percebe
Dá para fechar os olhos e tapar os ouvidos, mas não dá para deixar de sentir o que toca a pele. E a pele tem um caminho próprio para o toque agradável. Em 2009, Line Löken e colegas registraram a atividade de nervos do braço de voluntários enquanto um pincel macio passava pela pele em velocidades diferentes. Um tipo de fibra nervosa, chamada C-tátil, respondia mais aos toques lentos e suaves, entre 1 e 10 centímetros por segundo, justamente os que as pessoas achavam mais agradáveis.
Numa estadia, o toque fala antes das palavras: o piso, a cama, o tecido do lençol, o roupão depois do banho. Na Pousada Casa Campestre, os chalés têm piso de madeira, cama super king, enxoval egípcio e roupões Trousseau.
Temperatura: o conforto que não se nota
Ninguém elogia a temperatura de um lugar quando ela está certa, mas todo mundo percebe quando ela está errada. E o calor também ajuda a dormir. Uma revisão de 13 estudos, publicada em 2019 por Shahab Haghayegh e colegas, concluiu que um banho quente, de chuveiro ou de banheira, com a água entre 40 °C e 42,5 °C, uma ou duas horas antes de deitar, encurta em cerca de dez minutos o tempo para pegar no sono. O calor na pele ajuda o corpo a perder temperatura depois, e é essa queda que sinaliza a hora de dormir.
Na Pousada Casa Campestre, a cerca de 1.500 metros de altitude, os chalés têm ar-condicionado quente e frio, aquecimento de água a gás, toalheiros térmicos e hidromassagem dupla. Do lado de fora, o calor é o do fogo de chão no jardim, uma das experiências opcionais.
Sabores: comer com todos os sentidos
Pelo que a gastrofísica mostra, o sabor é construído também pelo que se vê, se ouve e se sente durante a refeição: o lugar, a luz, o ritmo, a companhia. Uma refeição sem pressa, num lugar que combina com ela, costuma ser mais apreciada.
Na Pousada Casa Campestre, o café da manhã é personalizado e servido no chalé, das 8:00 às 10:00. O jantar a dois, opcional, acontece das 19:00 às 20:30, no chalé ou ao ar livre, com pedido até as 17:00. E há também, entre as experiências opcionais, o picnic, o cine pipoca e o mini fondue, no chalé ou no jardim.
Como viver uma viagem com todos os sentidos
Algumas ideias simples para a próxima viagem a dois:
1. Diminuam os estímulos artificiais. Telas e notificações competem com tudo o que o lugar oferece; com menos delas, os outros sentidos aparecem.
2. Deixem a luz natural guiar o dia. Abrir a cortina pela manhã e diminuir as luzes à noite ajuda o corpo a entrar no ritmo do lugar.
3. Tomem um banho quente antes de dormir. Uma ou duas horas antes de deitar, ele ajuda a pegar no sono mais depressa.
4. Levem um sabor ou um cheiro para casa. Um café ou um queijo da região, por exemplo, ajuda a voltar à viagem semanas depois, a cada vez que é aberto.
Na Pousada Casa Campestre
A pousada tem três chalés independentes, de 45 m² e só para casais, numa propriedade de 26 mil m² de mata nativa com araucárias, em área rural de Gonçalves, na Serra da Mantiqueira. Em 2010, os fundadores reflorestaram o terreno com mais de 1.500 mudas nativas da região. É desse lugar que vem quase tudo o que se sente aqui: o silêncio, a madeira, o ar de montanha, o café da manhã no chalé e o fogo de chão sob o céu da serra.
Palavra dos anfitriões
Muitas vezes, o hóspede não consegue explicar por que uma experiência foi tão marcante. Ele simplesmente diz: “Foi especial.” Talvez seja esse o ponto. A experiência não acontece só naquilo que se explica; acontece no corpo, na temperatura, no aroma, no silêncio, na textura, na luz, no sabor e na forma como tudo isso se combina.
Nós não precisamos inventar uma montanha, fabricar o silêncio ou colocar uma trilha sonora para tornar a natureza especial. Nossa responsabilidade é mais delicada: não atrapalhar o que já é extraordinário. Saber quando acrescentar e saber quando retirar. Não queremos uma pousada cheia de estímulos; queremos uma pousada cheia de significado. O excesso cansa; a harmonia acolhe. Se, anos depois, alguém sentir o aroma de café e se lembrar de uma manhã na Serra da Mantiqueira, alguma coisa permaneceu.
Jefferson Renó e Alessandra Vinhas
Fundadores da Pousada Casa Campestre
Perguntas frequentes sobre experiências multissensoriais
O que é uma experiência multissensorial?
É uma experiência que envolve vários sentidos ao mesmo tempo, como visão, audição, olfato, tato, paladar e a percepção de temperatura. Como o cérebro combina tudo numa só impressão, ela costuma ser mais fácil de lembrar do que uma experiência que depende de um sentido só.
Quais são exemplos de experiências multissensoriais?
Estão em toda parte: uma refeição em que o som, a luz e a louça mudam o sabor; uma loja com aroma e música escolhidos juntos; um cinema que mexe a poltrona e solta vento; uma caminhada na mata, com cheiro de terra, canto de pássaros e ar fresco. Na Inglaterra, o restaurante The Fat Duck serve um prato de frutos do mar com fones que tocam o som do mar, inspirado nas pesquisas de Charles Spence.
Por que um sentido muda a percepção de outro?
Porque o cérebro integra as informações dos sentidos para formar uma única percepção. Em experimentos conhecidos, um vinho branco tingido de vermelho foi descrito com aromas de vinho tinto, e batatas fritas pareceram mais crocantes quando o som da mordida foi amplificado.
O que é marketing sensorial?
É o uso dos sentidos para influenciar a percepção, o julgamento e o comportamento das pessoas, como definiu a pesquisadora Aradhna Krishna, em 2012. Aromas, músicas, iluminação e texturas de lojas e hotéis são exemplos.
Temos só cinco sentidos?
A lista clássica tem cinco: visão, audição, olfato, tato e paladar. Mas o corpo também percebe temperatura, dor, equilíbrio e a posição dos próprios membros, e todas essas percepções participam de uma experiência.
O silêncio faz bem à saúde?
Há indícios de que sim. Num estudo de 2006, uma pausa de dois minutos entre trechos de música baixou a frequência cardíaca, a pressão arterial e a ventilação de 24 participantes a níveis abaixo dos de repouso. Para as noites, a Organização Mundial da Saúde recomenda que o ruído do lado de fora das casas fique, em média, abaixo de 40 decibéis.
Como os sentidos aparecem numa estadia na Pousada Casa Campestre?
No silêncio da área rural, a 9 km do centro de Gonçalves; no aroma da mata e do café da manhã servido no chalé; no toque do piso de madeira, do enxoval egípcio e dos roupões Trousseau; no conforto térmico do ar-condicionado quente e frio e da hidromassagem dupla; e no calor do fogo de chão, ao ar livre.
Referências
Morrot, G.; Brochet, F.; Dubourdieu, D. (2001). The color of odors. Brain and Language, 79(2), 309–320.
Zampini, M.; Spence, C. (2004). The role of auditory cues in modulating the perceived crispness and staleness of potato chips. Journal of Sensory Studies, 19(5), 347–363.
Shams, L.; Seitz, A. R. (2008). Benefits of multisensory learning. Trends in Cognitive Sciences, 12(11), 411–417.
Spence, C. (2017). Gastrophysics: the new science of eating. Londres: Viking.
Mattila, A. S.; Wirtz, J. (2001). Congruency of scent and music as a driver of in-store evaluations and behavior. Journal of Retailing, 77(2), 273–289. https://doi.org/10.1016/S0022-4359(01)00042-2
Wright, K. P., Jr.; McHill, A. W.; Birks, B. R.; Griffin, B. R.; Rusterholz, T.; Chinoy, E. D. (2013). Entrainment of the human circadian clock to the natural light-dark cycle. Current Biology, 23(16), 1554–1558. https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.06.039
Bernardi, L.; Porta, C.; Sleight, P. (2006). Cardiovascular, cerebrovascular, and respiratory changes induced by different types of music in musicians and non-musicians: the importance of silence. Heart, 92(4), 445–452. https://doi.org/10.1136/hrt.2005.064600
Alvarsson, J. J.; Wiens, S.; Nilsson, M. E. (2010). Stress recovery during exposure to nature sound and environmental noise. International Journal of Environmental Research and Public Health, 7(3), 1036–1046. https://doi.org/10.3390/ijerph7031036
World Health Organization, Regional Office for Europe (2009). Night noise guidelines for Europe. Copenhague: WHO. https://www.who.int/europe/publications/i/item/9789289041737
Löken, L. S.; Wessberg, J.; Morrison, I.; McGlone, F.; Olausson, H. (2009). Coding of pleasant touch by unmyelinated afferents in humans. Nature Neuroscience, 12(5), 547–548.
Haghayegh, S.; Khoshnevis, S.; Smolensky, M. H.; Diller, K. R.; Castriotta, R. J. (2019). Before-bedtime passive body heating by warm shower or bath to improve sleep: a systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews, 46, 124–135. https://doi.org/10.1016/j.smrv.2019.04.008
Krishna, A. (2012). An integrative review of sensory marketing: engaging the senses to affect perception, judgment and behavior. Journal of Consumer Psychology, 22(3), 332–351.
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