top of page
< Voltar

A Cadeia Econômica da Hospitalidade Responsável

Quando se mede o sucesso de um empreendimento turístico apenas pelo valor que ele retém diretamente, ignora-se a maior parte do impacto econômico que uma viagem efetivamente produz. A literatura de economia do turismo descreve esse fenômeno por meio do conceito de efeito multiplicador: cada real gasto por um visitante tende a circular várias vezes dentro do território antes de sair dele, gerando renda para fornecedores, produtores, prestadores de serviço e comércio local — desde que exista uma cadeia de relações capaz de reter esse valor internamente. Quando essa cadeia é fraca ou os insumos vêm predominantemente de fora, grande parte do dinheiro escapa do território em poucas transações, fenômeno que a mesma literatura chama de vazamento econômico (leakage). A diferença entre um destino que apenas recebe turistas e um destino que efetivamente se desenvolve por meio do turismo está, em larga medida, na extensão dessa cadeia local.


Michael Porter e Mark Kramer, ao proporem o conceito de criação de valor compartilhado (creating shared value), ofereceram uma reformulação importante para essa discussão: a competitividade de uma organização e a prosperidade das comunidades ao seu redor deixam de ser objetivos concorrentes e passam a ser mutuamente dependentes. Para os autores, o erro histórico das empresas foi tratar valor social e valor econômico como esferas separadas — de um lado o negócio, de outro a filantropia. Aplicado à hospitalidade, esse princípio implica que fortalecer produtores, artesãos e prestadores locais não é uma ação de responsabilidade social apartada da operação, mas parte constitutiva da própria qualidade da experiência que a organização vende. Um empreendimento não compete apenas pela excelência de suas instalações; compete pela robustez do ecossistema que consegue mobilizar em torno de si.


Essa lógica encontra eco também na economia de escala humana proposta por E. F. Schumacher em Small Is Beautiful, para quem sistemas econômicos ganham resiliência e significado quando organizados em escala compatível com as comunidades que os sustentam, e não apenas em função da maximização de eficiência. Destinos turísticos pequenos, como os da Serra da Mantiqueira, não competem com grandes polos por volume, e não deveriam tentar fazê-lo; sua vantagem está justamente na densidade de relações que uma economia de pequena escala permite construir — relações que sistemas massificados dificilmente reproduzem. A psicologia econômica contemporânea acrescenta ainda outra camada a essa discussão: consumidores tendem a atribuir maior satisfação a decisões de consumo percebidas como coerentes com seus próprios valores, de modo que saber que sua estadia sustenta uma rede de pequenos produtores pode ampliar, e não apenas acompanhar, o valor emocional atribuído à viagem.


Na Pousada Casa Campestre, Jefferson Renó e Alessandra Vinhas compreendem que a excelência de sua hospitalidade não pode ser dissociada da saúde econômica do território que a torna possível. Cada fornecedor escolhido, cada produtor valorizado e cada parceria construída em Gonçalves e na Serra da Mantiqueira representam decisões que ampliam ou reduzem a extensão da cadeia de valor local. Por isso, mais do que oferecer uma estadia excepcional, a pousada procura ser um elo que fortalece outros elos — reconhecendo que uma hospitalidade verdadeiramente responsável não termina nos limites de sua propriedade, mas se estende por toda a rede de pessoas e ofícios que fazem desse território um lugar único.

—Pngtree—whatsapp icon whatsapp logo whatsapp_3584845.png
bottom of page